quarta-feira, 2 de outubro de 2019

HISTÓRIA DA CRISE OU CRISE DA HISTÓRIA


 HISTÓRIA DA CRISE OU CRISE DA HISTÓRIA

  Nestor Ourique Medeiros
Professor estadual




Treze milhões de desempregados, empresas demitindo, lojas fechando, juventude sem esperança. Este quadro, apesar de doloroso, não é novo na História.
            Nestes trinta e três anos de sala de aula muito ouvi a pergunta típica de alunos egocêntricos: “por que devo estudar sobre coisas que aconteceram antes de eu nascer?” Como se o mundo tivesse começado a girar a partir do nascimento daquele aluno. Tantos homens e mulheres sofreram e lutaram para construírem suas vidas e deixarem um futuro melhor para as novas gerações. Não podemos ignorar a trajetória de tantas gerações anteriores, num processo histórico que nos trouxe até aqui, sem deixar de perguntar: para que serve estudar História? Se a História não serve para nos auxiliar a entender o presente, não serve para nada! Além disso, se diante da(s) crise(s) em que vivemos se as pessoas que estudam História ficarem quietas, não se manifestarem, mesmo que seja numa forma de catarse, para não enlouquecerem, para que serve, então, estudar a História?
 Só diante da compreensão do processo histórico é que vamos entender que outras crises já aconteceram e foram superadas pelas gerações anteriores. Secas, inundações, pragas, pestes, guerras geraram crises pela dramática redução de recursos para a sobrevivência da humanidade. Entretanto, no século XX, inaugurou-se uma nova forma de crise, uma crise que escancara as contradições sociais do capitalismo: a crise de superprodução.
            O liberalismo e a sua crença na “mão invisível” do capitalismo, provocou, após a Primeira Guerra Mundial, uma produção acelerada para atender ao mercado europeu, que estava com seu parque industrial debilitado pela guerra. Estados Unidos fornecia diversos produtos aos europeus, tornando-o a maior potência econômica da época. Entretanto, em uma década a Europa se reergueu e as importações de diversos produtos estadunidenses foram suspensas, provocando uma superlotação de mercadorias nos depósitos e nos pátios das fábricas. A queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, simbolizou esta superprodução de mercadorias que não tinham para quem serem vendidas, o que provocou uma onda de desemprego. Como uma bola de neve descendo a montanha, o desemprego gerava mais desemprego, o trabalhador demitido diminuía seu consumo gerando novos desempregados. A crise da economia estadunidense, que perdeu seu maior mercado consumidor, tornou-se mundial. Todos os países foram atingidos, menos a União Soviética. No Brasil, nosso principal produto de exportação, o café, deixou de ser comprado pelos Estados Unidos, nosso maior importador. Afinal, numa crise os primeiros gastos a serem cortados são os produtos supérfluos. Milhares de sacas de café foram queimadas, inclusive nas fornalhas das locomotivas, deixando, após a passagem do trem, um agradável aroma de café torrado no ar.
 Fábricas falidas, lojas fechadas, placas de aluga-se multiplicando-se e o desemprego rondando os trabalhadores, a cada dia fazendo novas vítimas, assombrando a todos, inclusive os proprietários de comércio que veem a sua clientela diminuir a cada dia. Esta realidade de 1930 pode ser vista hoje, na nossa sociedade. Diante deste quadro de desmoronamento da economia e colapso social, o governo dos Estados Unidos tomou uma decisão política arrojada: romper com o liberalismo e intervir na economia através do New Deal.     
Keynes foi um economista que, reza a lenda, teria dito para o governo pegar milhões de garrafas e dentro de cada uma delas colocar uma nota de um dólar e espalhar pelos Estados Unidos. Os desempregados, quando as encontrassem, iriam usar o dinheiro para comprar e assim ressuscitar a economia. Esta alegoria demonstrou a necessidade de um “novo acordo”, no qual o governo de Roosevelt geraria milhares de empregos através de obras públicas na construção de estradas, prédios governamentais e produção de energia. Esta massa de trabalhadores, ao consumir, iria gerar novos empregos que gerariam novos empregos, aumentando a arrecadação de impostos, aumentando investimentos em saúde, educação, segurança, que gerariam mais empregos e mais consumo e mais empregos, num círculo virtuoso.
Poderia encerrar o texto aqui. Afinal, está é a grande contribuição da História para resolvermos esta crise que nos aflige... Entretanto, sempre tem um “entretanto”, não basta sabermos como nossos antepassados lidaram com a crise e como a superaram. É preciso ter vontade política, por parte dos governantes, para agir como nossos antepassados e intervir na economia, mas, ao que parece, esta vontade não existe. O discurso do Estado mínimo e das privatização, inclusive de setores estratégicos para nossa soberania nacional, como a energia e a produção de novas tecnologias, faz acender uma luz de alerta para o comprometimento do futuro das novas gerações.
Você sabia que existe uma secretaria de privatização e desinvestimento? Calma, você não leu errado e nem eu escrevi errado, é desinvestimento mesmo! Reduzir o investimento em empresas públicas para vende-las. Estamos vivendo uma passagem bíblica: enquanto Jesus tinha os vendilhões do templo nós temos os vendilhões da Pátria. Empresas como a Petrobras, criada no governo de Getúlio Vargas, estratégicas para nossa economia representam o poder do Estado na sociedade. Um exemplo emblemático da influência do Estado na sociedade foi o anúncio da criação de aproximadamente vinte mil empregos, diretos e indiretos, na construção de plataformas para a Petrobras nos estaleiros de Rio Grande, em 2015, que geraria um crescimento econômico estrondoso na região. Mudou o governo, mudou a política em relação a Petrobras. A construção das plataformas foi transferida para a China e, ao ser questionado pelos jornalistas sobre os trabalhadores de Rio Grande que perderiam seus empregos e os empresários que investiram na construção de hotéis, restaurantes e lojas na cidade, o presidente da empresa simplesmente respondeu: “a Petrobras não é para fazer assistência social”. Diante desta resposta podemos concluir que o Brasil não é para os brasileiros.
Na década de 1950, este assunto fazia parte do debate político. Dois partidos tinham projetos políticos antagônicos para o Brasil. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Getúlio Vargas, pretendia industrializar o Brasil de dentro para fora, através de investimentos públicos para a criação de indústrias nacionais, por isto foi criada a Siderúrgica Nacional de Volta Redonda (primeira siderúrgica do país), a Eletrobrás, a Petrobras entre outras. A União Democrática Nacional (UDN), de Carlos Lacerda, defendia uma irrestrita abertura do país ao capital internacional, permitindo uma industrialização de fora para dentro, com empresas multinacionais.
Vargas merece um destaque especial porque foi o presidente que mais tempo ficou no poder (19 anos) e teve grande importância histórica ao investir na ampliação da indústria, tirando o Brasil da dependência econômica da exportação de café. Sua prática política refletia o mundo a sua volta, pode ser entendido como um político camaleão, sempre atento ao contexto político internacional, ora assumindo uma prática fascista (ditadura do Estado Novo), ora sendo democrático/nacionalista (eleito em 1950).
No governo de JK se confundiu desenvolvimento econômico com a abertura ao capital internacional, levando à falência empresas nacionais como a FNM (Fábrica Nacional de Motores), que não aguentaram a concorrência com as multinacionais. 
As indústrias multinacionais pagam salários muito inferiores aos trabalhadores brasileiros do que pagam aos trabalhadores dos seus países de origem, além disso, mensamente, ocorre a remessa de lucros às suas matrizes no exterior.
Nossas elites, com honrosas exceções, desde a época colonial, estão com a cabeça na Europa/ Estados Unidos e os pés no Brasil, atendendo aos interesses do capital internacional e colocando a nossa soberania nacional em risco. Desde que o Brasil se tornou política e juridicamente uma país, este conflito interno de interesses perpassa os nossos diversos períodos políticos, desde a monarquia agro exportadora e escravista, passando pela República Liberal, com a dependência do mercado externo na exportação do café, assumindo contornos dramáticos com o projeto de industrialização nacional de Vargas, onde se escancarou o conflito entre “nacionalistas” e “entreguistas”, culminando com o suicídio de Vargas, continuando com a entrada das multinacionais e a tentativa do governo João Goulart de limitar a remessa de lucros das multinacionais ao exterior, até o golpe de 1964, quando a ditadura civil/militar viveu uma contradição ao fortalecer empresas estatais e atender aos interesses da multinacionais, principalmente ao facilitar a remessa de lucros; até os dias de hoje, quando assistimos ao desmonte do Estado realizado por governos democraticamente eleitos, como foi o caso da venda da Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa mineradora do Planeta, da Embraer, leilão para exploração do pré sal, venda das ações da Petrobras Distribuidora, entre outras entregues ao capital internacional, numa clara ameaça a soberania nacional.(Não se trata de um crime de lesa Pátria?) Talvez a exceção, nestes 35 anos de democracia formal, tenham sido os governos do PT, que não privatizaram, mas acabaram derrubados por um golpe do Legislativo.
O atual governo surfa na onda das privatizações, do Estado Mínimo, das reformas trabalhista e previdenciária que retiram direitos da classe trabalhadora. Em relação a política externa, se alia de forma praticamente servil aos Estados Unidos, inclusive assumindo seus inimigos como o Irã e os palestinos e seus amigos como Israel. Parece, para alguns apoiadores do governo, que  vivemos na época da Guerra Fria, quando a Ditadura civil militar aplicava a Lei de Segurança Nacional, combatendo o “inimigo interno”, através do terrorismo de Estado e de uma aliança incondicional aos Estados Unidos, inclusive com aulas de tortura ministradas pela CIA.(vide Dan Mitrione, que ensinou algumas técnicas adotadas nos porões da ditadura) . O próprio presidente eleito é um contumaz admirador da ditadura civil/militar e não se cansa de homenagear a memória de conhecidos torturadores e chamar de terroristas quem lutou pela democracia naqueles tenebrosos “anos de chumbo”.
Goebbels, chefe da propaganda de Hitler, afirmava que uma mentira dita mil vezes se tornava uma verdade. Na desinformação em que vivemos, podemos afirmar que o revisionismo é o fake News da História. “Não houve o holocausto que matou tantos ciganos, homossexuais, eslavos, comunistas, judeus”...“não houve tortura nos porões da ditadura civil/militar”...”a Terra é plana”... “o Sol gira em torno da Terra”...“o homem não pisou na Lua”...“mulher não tem discernimento para votar”...“a democracia é muito importante para estar nas mãos do povo”...”comunistas comem criancinhas e mulheres de calcinha”... “não há luta de classes e nem há exploração do homem pelo homem”... “no Brasil só passa fome quem quer”... “as nações ricas destruíram suas florestas, logo, para sermos ricos devemos fazer o mesmo”... entre outras afirmações que ignoram a imensidão de fatos, depoimentos, comprovações cientificas, provas cabais que afirmam...não só afirmam... gritam o contrário!
O absurdo é tal, que o emprego já foi um direito, hoje é um privilégio, o nepotismo já foi crime, hoje presidente pode indicar filho como embaixador nos Estados Unidos, todos são iguais perante a lei, menos os militares, que ficaram de fora da Reforma da Previdência, podendo se aposentar com menos tempo do que os outros trabalhadores e deixar polpudos vencimentos para suas filhas solteiras (algumas com filhos e netos), escancarando privilégios para alguns e perda de direitos para a imensa maioria da classe trabalhadora.   
Pedindo licença a Platão, parece que vivemos no fundo de uma caverna, onde, por uma pequena fresta, os meios de comunicação de massas e as redes sociais, com seus fake News, só nos permitem ver as sombras do que acontece fora da caverna. (leia sobre o Mito da Caverna, escrito há 2.400 anos, talvez te faça bem, ou não).
Neste quadro surreal em que vivemos, onde sofismas confundem nossa compreensão da realidade, a grande crise da História é que as pessoas não querem aprender com a História. O que antes era comprovado como uma verdade histórica hoje é negado sem o menor pudor ou qualquer prova, gerando uma enorme confusão, tamanha é a desinformação, com afirmações absurdas, fotos montadas, ideias preconceituosas, que julgávamos mortas. Entretanto, nada morre, apenas se esconde, aguardando a oportunidade para reaparecer, disfarçado como uma nova verdade, mas é o mesmo ranço derrotado, superado no passado não muito distante, que volta. O neoliberalismo (e seu Estado Mínimo) e o neonazismo com todo aquele ódio e autoritarismo do passado com verniz de modernidade, são exemplos emblemáticos. Do jeito que as coisas vão, não duvidem que irão desencavar ideias como “alguns homens nascem para serem livres e outros para serem escravos” ou “o rei é rei por direito divino”, mascarados de novidade.
O ser humano é o único que faz História, mudando sua maneira de viver e se relacionar com os outros e com a natureza. Somos seres culturais, transformamos a nossa realidade e ninguém nos pode sub julgar, a não ser nós mesmos (“O homem é o lobo do homem”). Sendo assim, ninguém mais pode modificar a nossa realidade a não ser nos mesmos.
 Entendendo a História como um processo dialético, onde as contradições sociais provocam mudanças e “tudo é um constante vir a ser”, perceberemos que a realidade que existente hoje nem sempre existiu, portanto não continuará existindo. Esta consciência das transformações constates na História esbarra na realidade atual, quando vejo a arrogância destes que estão no poder, fazendo discursos preconceituosos e revanchistas, defendendo projetos que aumentam as desigualdades sociais, governando como se fossem eternos. Não posso deixar de lembrar que na Roma Antiga, quando um general triunfante era homenageado em um desfile pelas ruas, ao seu lado na carruagem havia um escravo que dizia ao seu ouvido: “não esqueças que és mortal”.   
                                                         10 de agosto de 2019.

Um comentário:

  1. O texto do Nestor apresenta uma análise da História do Brasil atual, como historiador, militante social, cidadão.
    Parabéns!

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